Agora faz sol sobre a cidade. Os meses de inverno são sempre os piores, não importa onde você esteja. Tudo é uma nova possibilidade, na medida em que os rostos forem ganhando significado e máscara. Encontrar é sobrepor máscara. E isso não é ruim se levarmos em conta que somos máscara, sobre máscara, sobre máscara. Até morrer. Assim como o corpo recém nascido vai, pouco a pouco, adquirindo máscara, também o moribundo se despede delas sobrepondo sobre o rosto a máscara final. Cedo ou tarde, finalmente, cada um atingirá o limite vazio de si.
Os dias na grande cidade seguem não sempre iguais. A bicicleta estragou voltando da USP na semana passada. Eu não estudo lá, mas gosto de acompanhar o que acontece no campus. Por ser aberto, subo o camelo e vou. As ruas não são assim tão perigosas. É tudo uma questão de estar atento. E forte. Preciso arrumar a correia antes de partir hoje, no final do dia, para mais uma. O rio nunca esteva tão sujo, assim como o ar.
Marco de encontrar uma amiga no horário do almoço. Comemos o melhor pão de queijo da cidade eleito pela Folha, pela Veja, pelo caralhoaquatro. E é bom mesmo. Só por isso sempre vou lá. Cortaram a jaboticabeira que tinha no quintal. Hoje, o pedregulho branco que compunha o chão, deu lugar a um asséptico piso cinza. A cidade se torna, a cada dia que passa, sempre um pouco mais higiênica. Talvez também nossos afetos.
UMA TERÇA
HOJE É NOITE DE DYLÄNICAS INÉDITO
Dylänica de hoje: MARINA LIMA
às 21 hrs na www.radioeletrica.com
LISTEN TO THE RADIO FOLKS!
DA MAIOR IMPORTÂNCIA
Você está na iminência de chegar. Assim como a sexta-feira, você também sempre chega na hora certa. Aquela que sempre acaba sendo a melhor para nós dois. O conforto dos encontros quase nunca deriva dos horários marcados. Por isso é bom te ver na hora em que qualquer coisa, além de nós, ousa querer acontecer em nosso lugar. O querer nunca estará à altura dos acontecimentos. Esperamos. Esperaremos. Sem nunca saber o quê.
Ontem presenciamos um nascimento. Ou a doença de uma voz se prestando a dramaturgia daquilo tudo o que nunca poderá ter acontecido, outra vez. Estamos na iminência de talvez não mais. Há os que abraçam a doença. Existem aqueles que dançam com a saúde. São dois lados de um mesmo corpo dançar abraçado quando não existe mais ninguém. A prerrogativa de estarmos juntos, é sempre deixarmos de acontecer. Gal Costa. Recanto. Desafino. Depois esqueça tudo aquilo que devia ter sido. Inflacione o próprio eu até que as bordas deixem de sê-lo.
Você caminhará pelo seu bairro. Talvez ele nunca seja. Talvez nunca tenha sido. Eu ajustarei as lentes. Talvez não precise foco. Sexta-feira é sempre encontrar o pouco além do que ousamos esperar. Perscrutaremo-nos. Há uma tarde inteira para tal. É tudo uma questão de atrasos para calibrar na luz a claridade certa onde habitar.
UTOPIA MOOG
Quais razões levariam uma pessoa a nascer em Nova Iorque e a morrer em Asheville? Hoje ele faria uma festa, não estivesse morto. Hoje teriam sido o seu aniversário. Aniversariemo-nos. Aniversariam-me. Você empacotou seu Moog, sem saber para onde estava indo. São Paulo – Porto Alegre – Montevidéo. Às vezes tudo é só uma conjugação de valores que nos trazem ao mesmo ponto. Aqui.
As galinhas estavam em volta. Onde quer que eu olhasse, eu a via galinhas. Passava todas as tardes em galinheiros. Em volta dos pintos. Pegava nos pintos e imaginava todos os lugares amarelos aonde eles pudessem vir a morar. Depois os bichos sempre morriam. O coelho comeu salsa. O pato afogou no tanque. O filhote quase gato morreu esmagado quando pensei que no chão só existia um pano. Eu não sabia o que estava fazendo lá, em todas as casas que entrei sem que me esperassem. Existem infâncias que nunca passaram de um incômodo latejo esperando que logo o mundo adulteça.
SOBRE TODAS AS TERÇAS-FEIRAS QUE ESQUECEMOS DE
É preciso encontrar outros pontos onde desequilibrar a sociedade. Por isso bicicleta. Ou transes. Quando disponho apenas das substancias inerentes ao meu próprio corpo para agir, adquiro uma potência muito maior. Tudo o que é artificial a mim desperta a guerra entre aquilo que eu sou e aquilo que espero vir a ser. Dos paraísos artificiais somos sempre expulsos cedo demais.
Por isso agora estou limpo. Perdi a conta dos quantos dias sem beber. Perdi a hora do acordar sem saber onde estou. Você me diz que estou mais calmo. Que nunca estive tão calmo. E eu me limpo ainda mais. Redes sociais, bebidas e cigarros. Meu corpo se despede de tudo o que ele um dia foi. Agora só me resta a inutilidade dos cafés. A falsa potência dos cafés. Muito em breve minha garganta cessará de doer. É quase certo que eu volte para Lajeado antes de Kollwizstrasse outra vez. Berlinaremos. Cedo ou tarde, berlinaremos.
São Paulo segue a calma das terças-feiras iguais. Você não está aqui, o que sempre confere leveza aos meus dias. Não fui feito para conviver com o que não existe mais, por isso parei de te telefonar. É tudo uma questão de que os projetos cheguem ao fim para que a gente seja o nunca mais. Se as coisas ficam mais bonitas quando transformadas em lembrança, o certo seria parar. Deixar que o limo verde da saudade confira importância a uma historia que esquecemos.
Depois você apaga a luz. Depois a claridade do outro lado da janela adquire o contorno preciso de uma insônia prestes a encalhar nossa cama.
Fomos feitos para ser quase tudo o que ainda não.